Localizado no coração da favela do Vidigal no Rio de Janeiro, o Sitiê é um Parque Urbano de 8,500m2 e um instituto para o Meio Ambiente, Artes e Tecnologia com origem, liderança e apropriação comunitária. O caso Sitiê mostra como a comunidade do Vidigal junto com uma coalizão de experts e doadores com visão conseguiu transformar o Parque e Instituto numa referência global de inovações em desenvolvimento urbano, democracia e sustentabilidade.

Como em todas as favelas/assentamentos informais, a população do Vidigal tem sido sujeita a décadas de injustiça estrutral em termos de serviços sociais, infraestrutura [água, esgoto, eletricidade, calçadas, ruas, sinal de telefones, internet, etc.] e espaço.  Até a metade da década de 1980, a área do Sitiê era um misto de Mata Atlântica e sítio. Em 1986, seis famílias invadiram a área e começaram a sua degradação, agravada em 2003 quando a prefeitura demoliu as casas mas falhou em remover os entulhos.  Por 20 anos, um total de 16 toneladas de lixo, incluindo eletrodomésticos, vigas de metal e animais mortos, foram acumuladas. Frente ao lixão, Mauro Quintanilha, residente nascido e criado no Vidigal, ficou gradualmente frustrado e preocupado sobre sua saúde e a da comunidade.  Com só 0.25m2 de espaço público por habitante numa área de terreno extremamente íngreme, não só a limpeza como também a demanda por espaços públicos verdes para bem-estar, cultura e lazer era uma necessidade urgente.

Em 2006, ao invés de ir embora, Mauro decidiu começar a limpar a área com a ajuda de Paulo Cesar de Almeida.  Com o apoio de outros moradores, eles removeram o lixo durante um período de seis anos, descobrindo no processo que a maneira mais efetiva de recuperar a terra e prevenir novas invasões era plantar.  Eles começaram um processo de reflorestamento, incluindo mudas advindas do Jardim botânico, e começaram áreas para agricultura urbana, levando o Sitiê a ser reconhecido como a primeira-agro-floresta do Rio de Janeiro em 2012. Sob a liderança de Mauro, a comunidade havia conseguido não só transformar o lugar mas também se transformar ao mudar sua cultura passando de vetor de degradação a protetora da floresta.

Em 2012 durante a Rio+20, Mauro e Paulinho conhecem Pedro Henrique de Cristo, recém graduado em Harvard e futuro fundador do estúdio de arquitetura +D, que vê o potencial único do projeto e se envolve rapidamente com este trabalhando com a equipe nos primeiros esboços do conceito do Sitiê, seu design urbano e até com a enxada quando necessário. Em março de 2013, Pedro organiza um desafio de design que conta com a participação de arquitetos brasileiros, americanos e japoneses em sua maioria vindos de Harvard, e que marca o início da cooperação formal entre as lideranças do Sitiê e uma comunidade de experts global. Pedro e sua esposa, Caroline Shannon de Cristo, recém graduada na Escola de Design de Harvard, e que participou do desafio de design, se tornam então membros da equipe do Sitiê vivendo por 3 e 2 anos respectivamente na favela do Vidigal e dividindo seu compromissos profissionais entre a comunidade e o mundo.

A integração do conhecimento contextual dos fundadores e da comunidade com a experiência profissional e acadêmica de Pedro e Caroline, sua rede de colaboradores, principalmente de Harvard e do MIT, e outros parceiros institucionais como o Arq.Futuro, o Instituto PDR, a FGV-Direito Rio e a CMS Design entre 2013 e 2015 levou o projeto a uma nova escala de operações, crescendo de uma área de 1.500m2 (2013) para o seu tamanho atual de 8,500m2, e ampliando suas atividades nas áreas de educação, design, agriucultura urbana, reflorestamento, artes, cultura, tecnologia e empreendedorismo [turismo e design].  Em cada uma dessas, o foco no processo de desenvolvimento de habilidades e soluções para desafios urbanos é mão na massa e experimental.   Em março de 2015 com o apoio da FGV Direito-Rio, o Sitiê completou o processo legal para se tornar uma associação, e em Setembro desse ano, de forma independente, alcançou o status de OSCIP, passo fundamental para se tornar uma organização da sociedade civil, formalizada em sua governança e estrutura financeira e o mais importante, profissionalizada com a sua Diretoria podendo ser remunerada por seu trabalho.

O grande sucesso do Parque e Instituto Sitiê se atribui ao fato que este foi criado e continua sendo liderado pela comunidade enquanto incorpora profissionais altamente treinados na sua equipe. A inteligência contextual de Mauro e outros residentes do Vidigal tem sido sintetizada com o treinamento acadêmico e profissional em arquitetura, landscape design, design industrial, políticas públicas, tecnologia e gestão de parques da equipe para criar uma cultura de excelência, transparência e prestação de contas num contexto desafiador de pobreza e violência resultando em inovações com ressonância e potencial para escala.

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